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"A Suécia foi derrotada pelo vírus"

Nicholas Christakis é médico e dirige o Laboratório de Natureza Humana na Universidade de Yale, onde é professor de Ciências Sociais e Naturais, e a propósito do seu mais recente livro, "A Flecha de Apolo", deu uma entrevista ao Expresso, que vale a pena ler.

Por Administrador em 18/12/2020 às 12:13:22

Porquê esse título?

A seta é metáfora para a doença. Muitas civilizações antigas, não apenas a grega, encaravam as epidemias como sinal do mal, vindo do desconhecido, como se os deuses fizessem as populações adoecerem. O título remete para a "Ilíada" de Homero, documento canónico da civilização ocidental, que descreve eventos de há três mil anos que mostram como as pragas sempre fizeram parte da condição humana. A verdadeira questão é sabermos porque pensávamos que poderíamos ter sido poupados. Não há razão para sermos poupados a algo que faz parte da condição humana.

O mundo ocidental não controlou a pandemia, ao contrário da China. Temos excesso de democracia?

A eficácia no controlo da pandemia não depende do sistema de governo. Não pode. E não é por estes sistemas menos democráticos serem bem-sucedidos que devem ser desejáveis. As democracias ocidentais têm factores de eficácia que devem ser considerados e, no entanto, falhámos na sua utilização.

Quais?

Somos países ricos, com ciência sofisticada, temos canais de comunicação abertos, em que a informação deveria poder fluir de forma livre, e não usamos estas armas de forma eficaz. Por exemplo, em Espanha, a política agiu de forma irresponsável, à semelhança do que aconteceu nos Estados Unidos. Mas países como a Grécia, Nova Zelândia ou Taiwan, que são democracias bem-sucedidas, conseguiram controlar o problema.

É uma questão de liderança?

Em parte, mas os cidadãos também devem ser responsabilizados. Espe­cialmente nas democracias, onde escolhem as lideranças através do voto. O que se deve esperar de um líder é que oriente as pessoas e seja honesto. Que torne a comunidade capaz de fazer um esforço colectivo. Além do mais, todos os líderes ocidentais foram aconselhados por cientistas, sabiam o que ia acontecer. E, se não foram, poderiam e deveriam ter sido. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos, onde o Presidente foi avisado em Dezembro. Em Janeiro, eu próprio sabia o que iria ocorrer. Se não foi surpresa para mim e para outros investigadores, também não foi para ele. E que fez? Mentiu! Transformou-se num absoluto falhanço de liderança.

Ficou surpreendido com esse falhanço?

Mais do que surpreendido, envergonhado. Não poderia ter sido pior. Vários países tiveram problemas, como a França e mesmo a Alemanha, mas não posso defender os Estados Unidos, só quero mostrar que outros fizeram algo semelhante, como o Brasil. E não é justo comparar o desempenho destes países com, por exemplo, o da Nova Zelândia, que é uma ilha. No livro falo de uma jornalista americana que diz que estava habituada a ouvir pessoas de outros países dizerem que tinham inveja, medo, raiva ou admiração pelos Estados Unidos, e agora o que ouvia era as pessoas a dizerem que tinham pena de nós. É uma vergonha.

Que pode fazer Joe Biden?

Chegará demasiado tarde. Após a pandemia, pelo menos um milhão de americanos terão morrido.

Está preocupado com o Natal?

Com certeza. As pragas são momentos de luto e de pesar. As pessoas perdem não só os seus entes queridos mas também a sua forma de vida, os seus empregos... São demasiadas perdas. Temos de educar a população para este período. Mas esta atitude exige uma sociedade madura.

O que pensa da opção sueca?

A Suécia foi derrotada pelo vírus. Pensar que poderia reagir à pandemia através da rápida imunização de grupo não é uma loucura, mas deveria ter sido abandonado de imediato quando se percebesse o elevado número de mortes que causaria. Não rejeito à partida esta opção, mas acredito que só pode ser utilizada se não houver alternativas, como o desenvolvimento de uma vacina. No passado era assim que as epidemias acabavam. Além do mais, nunca é desejável para um país que as pessoas fiquem todas doentes ao mesmo tempo, porque os sistemas de saú­de entram em ruptura e as pessoas acabam por morrer.

Foi uma decisão económica?

É das maiores confusões desta pandemia. As pessoas pensam que a economia parou porque os governos optaram pelos confinamentos, mas, se olharmos para as pandemias ao longo dos séculos, a economia colapsa sempre porque as pessoas ficam doentes e param.

A contagem diária de mortos banaliza a relação com a perda?

É como se falássemos da previsão do tempo. Por isso, a cobertura dos jornais deve personalizar as situações, explicar quando as regras não são respeitadas.

É aceitável negar a ciência?

A ciência não é perfeita, comete erros, faz parte da sua natureza. Na religião não há discordância, mas faz parte da natureza da ciência. A ciência é a melhor ferramenta que temos para prever a verdade e é o que deve apoiar a comunicação dos líderes políticos, que devem ser claros sobre as evidências ou as dúvidas que têm. Também é o papel dos jornalistas recorrer à evidência científica para confrontar os negacionistas.

Que prioridades é que deve ter a vacinação?

Os primeiros deveriam ser os voluntários que receberam o placebo nos ensaios clínicos. Depois, os profissionais de saúde que combatem o vírus e arriscam as vidas para nos ajudar. A controvérsia vem a seguir. Para alguns, deveriam ser os idosos, mas há quem defenda que sejam os mais jovens, de forma a estancar o crescimento da pandemia. Se me vacinar, posso poupar a vida de cinco idosos, mas se vacinar um idoso, é só a vida dele que protejo, porque ele está fechado. Há argumentos científicos para vacinar os mais novos, mas os argumentos políticos vão prevalecer.

Qual o espaço para a esperança no contexto da praga?

A compreensão de que estamos a atravessar a escuridão de uma tempestade, mas a História mostra que acaba sempre. Vai acabar. Fomos atacados, mas a nossa geração terá a oportunidade de parar o vírus com a vacina. Podemos ser esperançosos com o nosso momento histórico.

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