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A revolução de ACJ ou que é que as listas da UNITA têm que as do MPLA não têm

A resposta é óbvia: as listas MPLA não têm elementos de outros partidos, e de tão óbvia, parece uma piada, mas vamos tentar ver para além do óbvio.

Por Cisola Silva Pontes em 21/06/2022 às 14:55:44
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Adalberto Costa Júnior está a fazer um jogo de resultado incerto, como são todos os jogos, sendo que Costa Júnior corre um risco maior. Senão vejamos, o presidente da UNITA está a sacrificar as estruturas tradicionais do partido para incluir membros de outros partidos e da Sociedade Civil.

Será que no âmago da UNITA mais tradicional, que ainda em 2019 discutia o tom da pele de Adalberto Costa Júnior, essa "inclusão" caiu bem? Não teremos na UNITA estômagos mais sensíveis às voltas? Não estará Adalberto Costa Júnior a abrir frentes externas, dando as costas a inimigos internos?

Ou seja, Adalberto Costa Júnior está a promover uma "revolução" dentro da UNITA de que pode vir a ser a primeira vítima, o primeiro a ser decapitado.

Por agora sabemos que Isaías Samakuva, Kamalata Numa ou Paulo Lukamba Gato estão fora das listas a seu pedido, mas é tudo o que sabemos. Nenhum destes históricos do Galo Negro foi visto ou ouvido em público a explicar porquê.

Se a UNITA vencesse as próximas eleições gerais de 24 de Agosto, o poder daria cimento que esta aparente manta de retalhos precisa para se consolidar, mas, e o mais provável, mesmo muito provável, é que isso não aconteça.

Celso Filipe, director-adjunto do Jornal de Negócios, o jornal português, escrevia hoje, 21 de Junho, "o Presidente angolano ganhou credibilidade junto da comunidade internacional com a aposta no combate à corrupção. Agora, precisa de garantir a transparência das eleições gerais de Agosto para que a confiança conquistada lhe seja renovada".

Ou seja, há demasiadas pessoas a percepcionar que as eleições não serão exactamente "livres e justas", condição básica de um regime democrático, e que o MPLA só ganha com uma "chapelada" (para quem não está familiarizado com a expressão, quer dizer fraude).

Temos, então, que na ressaca eleitoral Adalberto Costa Júnior terá de prestar contas aos seus, a todos aqueles que na UNITA vão ver os seus lugares na Assembleia Nacional usurpados – porque é o que vão pensar - por gente estranha ao partido. E podemos antecipar que não vai ser bonito de se ver (aliás, o teatro montado à porta do Constitucional, aquando da entrega das listas, é sinal que esta eventual fragilidade vai ser explorada dentro e fora da UNITA).

Por agora, Adalberto tem sido prudente, está mais focado a falar de uma frente eleitoral inclusiva do que em resultados. Isto é, Adalberto Costa Júnior opta por falar em "alternância de poder", um conceito suficiente abrangente para não fazer dele um derrotado na noite eleitoral de 24 de Agosto (ah!, e terá um dia que esclarecer se aceitou ou não o apoio de Isabel dos Santos, e em que condições).

É certo que os analistas apostam num bom resultado da UNITA, 'chapeladas' à parte, mas terá de ser mesmo um excelente resultado para o Galo Negro não depenar no dia seguinte Costa Júnior.

Enquanto isso, Adalberto Costa Júnior acaba de se afirmar como um político destes dias, verdadeiramente inclusivo e abrangente, alguém que quer governar todos com todos - e esse é o enorme mérito das listas da UNITA apresentadas hoje no Tribunal Constitucional.

O segundo lugar de Chivukuvuku era esperado, a presença de Justino Pinto de Andrade em lugar de destaque tinha sido já anunciada, até aqui não temos grandes surpresas.

Mas se falarmos de Francisco Viana, que nos últimos dias tem sido enxovalhado por pessoas ligadas ao MPLA, "o seu partido desde que pequeno", denunciado o mal-estar que a sua atitude provocou, temos a primeira surpresa, ainda por cima num lugar tão cimeiro como a 18.ª posição da lista.

Se falarmos de Paulo Faria, um independente, que se assume como elemento activo da Sociedade Civil e um prestigiadíssimo académico, que está na 31.ª posição, também elegível, temos outra surpresa.

No domínio das meias-surpresas estão também muitos dos elementos dos chamados "15+2", agora institucionalizados num partido político, ainda que como independentes, eles, que são o símbolo da luta contra o poder "ditatorial" de José Eduardo dos Santos e, por extensão, do MPLA. Uns em lugares mais elegíveis do que outros, mas todos passando a mesma mensagem: que acreditam na alternância de poder ou que o país precisa dela.

E é também isto que as listas da UNITA têm o que as do MPLA não têm - uma efectiva abertura aos outros partidos e à Sociedade Civil.

Adalberto Costa Júnior e tal como, por exemplo, os políticos franceses Macron ou Mélechon fizeram muito recentemente, mostra-se capaz de congregar para governar.

Na última sua entrevista colectiva, o Presidente João Lourenço disse que dialogava com todos e que não dava privilégios a nenhum partido em especial, sendo que até ironizou com a anacrónica ideia de um Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN).

Pois é também isto que Adalberto consegue contrariar, revitalizando a ideia de um qualquer GURN, isolando o MPLA e dizendo que é possível uma alternativa política ampla e abrangente.

Dito de outra forma, Adalberto veio dizer a João Lourenço que não se trata da UNITA contra o MPLA, mas de quase todos contra o MPLA, que só sobrevive porque tem o apoio das estruturas do Estado.

Também por isso, o olho do furacão está agora no Tribunal Constitucional (TC), por quem passa a validação das listas apresentadas, e há nas listas da UNITA nomes que são quase uma provocação para certos sectores do TC. Espera-se que a juiz-presidente Laurinda Cardoso seja o árbitro parcial de uma ideia de jogo democrático.

Enquanto isso, o MPLA tem também aqui uma oportunidade para alguma reflexão. Não chega só dizer que foram os primeiros a apresentar as listas ao Constitucional porque são disciplinados, porque são um grande partido, provavelmente, seria útil que explicassem porque é que o partido se fecha tanto sobre si mesmo e inclui nas suas listas pessoas que estão a contas com a justiça, ou pessoas que têm desistir da sua candidatura porque, e por momentos, decidem fazer (in)justiça pelas suas próprias mãos.

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