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HÁ ALGUÉM AÍ SE PASSANDO POR SOCIÓLOGO!: O PAPEL DO SOCIÓLOGO EM TEMPO DE CRISES SOCIAIS

Para se compreender o papel do sociólogo é preciso partir da natureza da própria sociologia no contexto das demais ciências sociais.

Por Administrador em 02/04/2020 às 11:40:48


Diante da situação de crise social mundial imposta pela proliferação da COVID-19, vários especialistas são chamados a contribuir com o seu saber: profissionais de saúde, biólogos, psicólogos, sociólogos, juristas etc. Neste contexto, qual é a função do sociólogo? O que o sociólogo faz nestas situações?

Para se compreender o papel do sociólogo é preciso partir da natureza da própria sociologia no contexto das demais ciências sociais. A sociologia nos primórdios de seu surgimento como ciência social sempre se mostrou atrelada a duas funções:

  1. Fornecer um paradigma explicativo (das causas e consequências) da crise social (para ordem);
  2. Apresentar vias para superação dessa crise (para o progresso);

Essas duas funções estavam já confinadas no pensamento positivista de Auguste Comte (pensador francês a quem é convencionalmente atribuída a paternidade da sociologia).Essa funções da sociologia surgiram do próprio contexto socio-histórico em que ela se formou como ciência. A sociologia nasceu da crise social. No início do século XIX, a Europa estava a sofrer as grandes transformações levadas a cabo séculos antes: no caso, a revolução religiosa, a revolução científica, a revolução francesa e a revolução industrial. Esse leque de revoluções (que não aconteceram num mesmo momento, claro!) fez nascer uma nova organização social e nela muitos problemas sociais. Com o surgimento das grandes cidades e centros industriais, houve um êxodo desenfreado do campo para cidade. Isto permitiu o surgimento de fenómenos como: desemprego em massa, prostituição, epidemias, criminalidade etc. Doutro lado, existia uma luta de classe (entre os possuidores dos meios de produção e os possuidores da força de trabalho) e também uma luta ideológica (entre os revolucionários e os reacionários) (Cf. Lallemant, 2012, Martins, 2013; Xiberras, 1993; Gil, 2013 e tantos outros).

À essa situação de crise social e a necessidade de ordem é o que se veio a denominar de "questão social".
A sociologia surge então como pioneira na preocupação com esta "questão social".
Com o seu evoluir outros paradigmas sugiram e com outras exigências à própria ciência no lidar com os fenómenos sociais. Assim, podemos enunciar três funções que a sociologia acumula na sua história:
1. Explicar os fenómenos numa lógica "causa-efeito" (paradigma positivista);
2.Compreender numa lógica descretivo-interpretativa (paradigma fenomenológico).

Então, numa situação de crise social não é o médico, o psicólogo nem muito menos o jurista que deve explicar ou fornecer uma análise (do contexto social) compreensiva da situação imposta por uma crise social. Essa é a função do sociólogo. Questões como "porquê?" e "como" estão confinadas a essa função. Por exemplo, como o novo coronavírus tem implicações na vida social? Porque as pessoas tendem a quebrar as regras do estado de emergência? Porque o coronavírus está a inslar mudança social e porque o mundo se prepara para viver uma nova ordem social? Como o mundo se prepara para viver essa ordem?

No entanto, sociólogo ajuda a sociedade a enxergar "o óbvio", "as funções latentes" (Merton), aquilo que está por trás das fachadas (Berger) dos fenómenos. O sociólogo ajuda no "desencantamento do mundo" (Weber). Na Idade Média, existia uma figura social que era conhecida como "bobo da corte". As pessoas que desempenhavam esse papel tinham a função de entreter o rei. Na lógica do "Ridendo castigat moris" (pelo humor, critica-se os costomes), o bobo era o único que podia, por meio da sua profissão, criticar o rei. Apontar os erros do rei e as suas consequências.


Esse papel hoje é parte singular do ofício do sociólogo. Mas qual é a vantagem da função do sociólogo nestes contextos de crise social? Primeiramente é que o parecer do sociólogo permite que a sociedade ou o Estado não aja sobre algum situação imposta por um fenómeno sem conhecimento prévio de duas coisas: 1 ) o que ele é; e 2) quais as possíveis consequências, tanto ao se agir sobre ele quanto de não agir sobre ele. Neste contexto, não restam dúvidas que, ali é acolá, não faltam especialistas dando uma de sociólogo. Numa sociedade onde não se conhece e se reconhece o papel do sociólogo "sociologam-se" os juristas.
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