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CIDADANIA ESPECIAL E SUA MANIFESTAÇÃO EM TEMPO DAS GRANDES FILAS NAS INSTITUIÇÕES

A questão de minha reflexão é: o estado de crise social imposta pelo coronavírus permitiu o desaparecimento de toda a cidadania especial?

Por Administrador em 31/03/2020 às 14:58:08

A cidadania, na sua versão ideal, tem como um dos seus principais princípios a igualdade. O princípio da igualdade põe os cidadãos num nível horizontal de direitos. A cidadania especial encontra-se empiricamente categorizada, podendo ser agrupada em:

1. O conjunto dos cidadãos que possuem alguma deficiência ( cegos, cochos, amputados etc.),

2. Os cidadãos que possuem uma limitação imposta por uma situação temporaria ou não (velhos, grávidas, pessoas com bebês etc.).

Normalmente esse tipo de cidadania espacial é de dimensão manifesta; as pessoas conhecem-na e aprovam-na, ou seja, partindo de minha concepção de que a cidadania especial consiste na excepcionalidade atribuída ao princípio de igualdade, podendo um cidadão, em função de uma característica singular, ter privilégios que a outrem, sem esta característica, não lhe serem dados, as outras pessoas cedem certos privilégios a um conjunto de cidadãos nesse situação. Pelo facto de ela ser manifestamente legítima, conveio-me denomina-lá de "cidadania especial pura".

Do ponto de vista sociológico, fruto dos nossos 6 anos de estudo sociológico das filas (bichas) em instituições públicas, podemos evidenciar um tipo simbólico de cidadania especial, a que chamei de "cidadania especial simbólica".

Esse tipo de cidadania especial deferência-se da anterior pelo facto desta não ser institucionalmente legítima.

Nisto, ao passo que a cidadania especial pura é social e institucionalmente legítima; esta última não o é, embora ela tenha a mesma via de manifestação daquela, daí eu chamar de cidadania espacial simbólica. Assim, há uma terceira categoria: 3. O conjunto de pessoas que possuem uma teia de relações vantajosas (capital social) ou um status social alto, servindo-se destes para obter um bem ou um serviço social.

É importante um pormenor quanto a esse ponto. Qualquer um cidadão pode, bastando ter o meio que o permita, sair de uma "cidadania normal" para uma cidadania especial simbólica. Nisto, ela não é um privilégio de cidadãos da classe alta.

Com efeito, gostaria de aproveitar os resultados desse meu estudo (que por sinal ainda não terminou), para analisar as filas nas instituições públicas, num momento em que elas se proliferaram por tudo que é instituição.

A questão de minha reflexão é: o estado de crise social imposta pelo coronavírus permitiu o desaparecimento de toda a cidadania especial?

Será que finalmente, graças a essa situação em que todos estão com pressas de poder ter o que precisam, somos todos iguais no sentido de que cada um deve esperar a sua vez, não importando a limitação que possua ou status social?

Passados cinco dias desde que se decretou o Estado de Emergência, fui analisar cinco filas em cinco instituições públicas de venda de bens e serviços.

Constei que as filas nas instituições ganharam uma certa metamorfose, não só na forma, como também no conteúdo, ou seja, as filas se tornaram mais longas e vertiginosas. Por parte da população, por esse facto, parece que o cidadão especial puro (por exemplo um cego) reduziu-se à um cidadão normal que pode esperar também a sua vez. Diferente do que acontecia na vida Antes-COVID-19, em que, por vezes, eram os próprios "cidadãos normais" que davam acesso, a tendência é não haver mais essa atenção. Por vezes, essa atenção é afogada pela preocupação de chegar a sua vez e pelo medo de não o poder fazer. Quanto a esse ponto, não é, sobremaneira, muito arriscado se afirmar que a situação actual "desumanizou" as filas (das instituições).

Um outro ponto que é essencial realçar é o facto de que a cidadania especial simbólica, ao contrário da pura que tende a ser afogada, tende a ser sobressalente. Nas filas nas instituições, o cidadão simbolicamente especial moviam-se de um lado para outro, evitando as filas, servindo de sua influência para adquirir o bem ou o serviço que desejava.

Num destes dias, por exemplo, estava numa instituição e apareceu um cidadão. Parou o seu carro. Pediu a alguém que estava de lado para que chamasse a gerente. Saindo a gerente ao seu encontro, tão logo, o que este cidadão desejava vinha, minutos depois, nas mãos da própria gerente. O cidadão era tão especial que nem precisou descer do seu carro.

Dentre outras situações constatadas, por meio de uma observação participante, importa dizer que a cidadania especial simbólica é mais evidente, mais propagada, em tempos e situações afins.

Do ponto de vista sociológico, significa tudo isso que as filas são espaços para "os iguais", para aqueles que devem se manter iguais. Já o cidadão simbolicamente especial é aquele que infringe essa igualdade, rejeitando-a.

Portanto, enquanto a cidadania especial pura, em tempos das grandes filas, tende a ser afogada pelo medo social e pela preocupação, desumanizando esses espaços de exercício da cidadania e dos princípios democráticos, a cidadania especial simbólica, que é um atentado a essas exigências, tende a ganhar mais vida, contaminando esses espaços significativamente.

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