RCN12
Planalto Studio

CLASSES SOCIAIS E AUTORITARISMO SOCIAL: O CANCRO DA SUPERIODADE VERTICAL

Na nossa sociedade, há algum tempo, a arrogância no trânsito era um indicador típico de quem é dessa classe: aqueles que não precisavam ser parados.

Por Administrador em 10/05/2020 às 10:17:07

A história encarregou-se de nos dividir em classes sociais macros: alta, média e popular ou baixa. No contexto colonial, dá classe popular, nativa, a qual fazia contraste com a classe alta colonial, nascia a nossa classe média, sob as vestes de "assimilados".

Naquele contexto social, o maior divisor de classes era a cor da pele, o qual conferia status social. O nascimento da classe média dependeu de condições político-culturais: 1) a adesão à cultura portuguesa (ao seu modus vivendi) e 2) por intermédio da satisfação do primeiro, a aquisição a cidadania portuguesa.

Assim, a classe média, sob condição de assimilada, passou a deter certos privilégios, como ter acesso à educação e a certos lugares públicos (como o cinema). A classe económica portuguesa colonial era a classe alta a qual empregava essa classe média. O contacto social permitia que a aculturação fosse mais rápida. Cada vez mais, a classe média, pelo conctato com a classe alta colonial, estruturava-se, distanciando da classe popular, porém também sem poder ter acesso à classe dominante: a classe alta colonial.

Esse distanciamento social em relação à classe popular, deu origem ao "autoritarismo negro" ( oposto ao "autoritarismo branco", que era exposto tanto em relação à classe popular quanto à classe média assimilada), cristalizada no "racismo negro pelo negro". A classe média assimilada cobrava da classe popular - assim como a classe alta colonial cobrava dela - o comportamento dito "civilizado", como padrão de convivência social: "saber falar" (afinar o português), vestir casaco e chapéu (no caso dos homens) etc. Enquanto o autoritarismo da classe alta colonial se fundamentava na cor da pele, o autoritarismo da classe média assimilada fundamentava-se no facto de esta se rever naquela e sentir-se igual a ela.

É assim que muitos assimilados tiveram o privilégio de dar uma educação académica aos seus filhos.
Depois do processo de luta pela independência, a classe média viu nascer dela aquela que viria a ser a classe alta (burguesa) angolana, isto com a transferência dos meios de produção das mãos do colono para os nativos, primeiramente para as mãos de uma minoria sob a forma de Estado, o qual tinha a missão de distribuir igualmente a todos, e posteriormente, a uma minoria sob forma de sociedade civil (cidadãos política e economicamente organizados), permitida pela transição daquela economia centralizada estatal para uma economia de mercado, isto em 1991.

Na verdade, no processo (político) do surgimento da classe burguesa, nem todos os da classe média ascenderam. Uns foram deixados para traz. Por outra, o desenvolvimento social e económico viria a permitir que muitos da classe popular ascendessem para a classe média, já num contexto em que o critério de divisão dessa classe deixa de ser político-cultural para ser económico-cultural, ou seja, um conjunto de indivíduos, (todos) sob condição agora de cidadãos, poderamm ascender a certas profissões liberais, como: a de professor, advogado, consultores, artistas, jornalistas de elite, juízes, deputados etc.

Esse conjunto de profissionais - desde que tenha um poder aquisitivo superior ao da classe popular - forma a nossa classe média. Uma classe social que teve que sofrer muito para atingir tal posição social. A maior parte da nossa classe média (tanto alta como baixa) vieram da classe popular (ou classe baixa).

É mesmo essa classe média que teve de "roçar" para ascender socialmente que, em conjunto com a classe alta que, por sua vez, veio dela, nota-se um autoritarismo infernal. As formas de manifestação desse autoritarismo são variadíssimas. Vale realçar a forma como tendem a quebrar as regras e leis. Sentem-se como se a lei só se aplicasse aos da classe popular. Como que se só fosse feita para eles. Esse autoritarismo é manifesto tanto quando alguém, servindo-se da sua posição social, infringe uma fila do banco sem dar explicações, quanto quando vê-se outros, servindo-se da sua posição social, infringir uma regra de trânsito.

Na nossa sociedade, há algum tempo, a arrogância no trânsito era um indicador típico de quem é dessa classe: aqueles que não precisavam ser parados. E quando abordados, sentiam-se intimidados e o autoritarismo vinha como resposta, ou por meio da exibição do passe de serviço (com alguns "porras" e "caralhos" acrescidos) ou por meio de uma ameaça de feitura de uma chamada telefónica: "vou ligar para o seu chefe". O que isso expressa senão o "cancro da superioridade vertical": alguém que é, pelo cargo que possui, sendo superior horizontal ou hierárquico (significa que não está acima da lei), posicionar-se acima da lei ?!

A atitude daqueles que um dia violaram a cerca sanitária é precisamente um indicador típico desse autoritarismo de classe: pensar-se que se está acima da lei, e que portanto a lei deve se curvar perante alguns.
Uma outra forma desse autoritarismo de classe é o "discurso autoritário". Visto, por exemplo, na fala do músico saxofonista Nanuto, quando entrevistado na Rádio Nacional, face à situação porque passavam no momento em que foram deixados muito tempo a espera para serem testados (da COVID-19). Em entrevista, o mesmo disse: "Eu sou Nanuto..." e, na sequência, dizia que aquilo era uma "falta de respeito" e que as autoridades tinham que respeitar mais as pessoas. Não mais de cinco horas de espera! Era uma falta de respeito!

Não nos cabe dizer se foi uma falta de respeito ou não, mas se foi, quantas faltas de respeito a classe popular tem recebido de muitas instituições e inclusive de músicos em shows, que ficam a espera horas e horas?! Mas a questão sociológica que se coloca é: porque atitudes de revelia como está não é comumente notável na classe popular? É porque ela não é autoritária. O seu status de classe não o permitiu, na sua história, desenvolver o autoritarismo como forma de afirmação identitária de classe. Ao contrário da classe impoderada. Esta usa o autoritarismo como forma de afirmação de identidade de classe. Quando o "respeito" (que não é senão o tratamento diferenciado) não lhe é dado (como se lhe fosse naturalmente devido), ela cobra com juros de autoritarismo.

Se "todos são iguais perante a lei", portanto, o autoritarismo é, sobremaneira, uma das formas de adiar democracia, por meio da alienação desse um dos seus mais nobres princípios: a igualdade parente a lei.
Restaurante
Banner_Animado_Planalto_Studio