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RELIGIÃO E COVID-19: CARA À CARA - REFLEXÕES SOBRE A MIDIATIZAÇÃO TOTAL DA RELIGIÃO

As primeiras formas de midiatização da religião datam do século XX, principalmente em televisão e rádio. Mesmo antes da COVID-19, a prática do tele-culto/celebração já era muito recorrente em muitas religiões.

Por Administrador em 13/04/2020 às 08:18:24


Gostaria de começar essa reflexão das com a inversão - diria "adulteração", grosso modo - de uma das frases mais famosas do grande pensador, filósofo, historiador e sociólogo Karl Marx. Na sua análise sobre a religião - Marx faz uma análise crítica da religião - na introdução à sua obra "Crítica da filosofia do direito de Hegel", publicada em 1844, vai dizer uma frase que faz com que qualquer cristão o odeie: " a religião é o pio do povo". Longe de concordar ou discordar imediatamente com ele - sob pena de atrair aqui o odeio dos cristãos amigos e se calhar o ódio de mim mesmo, sendo que, por me mostrar cristão, muitos dir-me-iam ser religioso. Porém dessa sua frase faço a seguinte provocação: "a midiatização total da religião é o pio da religião" (?).

O "quê" dessa nossa reflexão está ligado ao contexto actual em que, face à propagação da pandemia da COVID-19 pela e face às medidas de prevenção, por decretos de Estados de Emergência que têm sido emergentes em vários países, os líderes religiosos, proibidos de abrir seus templos/igrejas, tem recorrido à midiatização de suas religiões como alternativa, com tele-cultos ou tele-celebrações. O contexto fez nascer a tele-religião.

Do ponto de vista histórico, a tele-religião não é um fenómeno novo. As primeiras formas de midiatização da religião datam do século XX, principalmente em televisão e rádio. Mesmo antes da COVID-19, a prática do tele-culto/celebração já era muito recorrente em muitas religiões. Todavia, em relação ao contexto actual, há uma particularidade: as manifestações religiosas, na maior parte desses países, recolheram-se totalmente, grosso modo, para o plano midiático. Mas do que questionarmos - como foi sendo tendência de muitos - se o encolhimento das religiões para o espaço mediático é uma questão de falta de fé, seria conveniente vê-lo como um acto de fé. Porquê?

Porque se o recolhimento da religião para a mídia, com o encerramento (por consentimento) dos templos/igrejas implicasse meramente uma falta de fé dos crentes das religiões ao Deus em quem crêem, talvez seria de dizer que a igreja acabaria ali. E se, resistindo, com essa lógica que ela "fugisse" para o espaço midiático, isto implicaria dizer que toda a fé religiosa terá se reduzido a uma "hipocrisia colectiva", podendo ser possível dizer que toda manifestação de fé religiosa actualmente é apenas um acto de hipocrisia. O que não é verdade.

Não é verdade não porque não é verdade, mas porque, do ponto de vista científico, ali esgotariam os nossos recursos metodológicos (objetividade científica) para continuar a fazer qualquer análise sobre o assunto. Por exemplo, como operacionalizariamos a hipótese que "toda manifestação actual de fé é um acto de hipocrisia"?! Não é possível, senão pela lógica da "explicação do problema pelo problema". Afirmar que é uma manifestação de hipocrisia, porque essa fé não é verdadeira, sendo que uma fé verdadeira seria aquela em que se confia em quem se crê sob quaisquer circunstâncias. E mesmo nesta lógica, os cristãos teriam como se defender recorrendo a resposta de Jesus à tentação de Satanás no deserto: "Não tentarás o Senhor teu Deus". Aí entraríamos numa discussão teológica e não científica, como nos propusemos a fazer aqui. Voltando a linha de reflexão que preferimos seguir acima, ver esse encolhimento da religião como um acto de fé ajuda-nos a entender a lógica do próprio campo religioso, enraizada no ideal de ligar o homem à Deus.

Neste sentido, a religião vê a mediatização, nesse contexto, como um recurso alternativo para continuar a ligar os seus fiéis/crentes a Deus. Uma outra colocação que eu gostaria de fazer é o facto de que o encolhimento mediático das religiões deixa uma brecha para refletirmos as vias de saída da "crise de valores" em que se encontra mergulhada as religiões, principalmente as cristãos contemporâneas (?).

Hoje por hoje a igreja cristão se debate com uma "crise de valores". Essa crise de valores abriu novos campos de investigação no âmbito da sociologia da religião. No âmbito desse campo da sociologia, têm sido investigados assuntos como "teologia da prosperidade", "mercadorização da fé" etc. As práticas religiosas de movimentos religiosos emergentes têm sido alvos de análise sociológica em várias partes do mundo. Muitas dessas práticas anunciam essa crise da "desvalorização dos valores religiosos supremos".

Neste sentido, não seria arriscado pensarmos que a crise social que empurra a igreja para um encolhimento midiático total mostra-se como um "mal necessário", por que ela reforça o nascimento do tele-religião, podendo servir de:

i) meio para o desaparecimento da religião enquanto organização que liga o homem à Deus (está lógica que, no cristianismo, com o nascimento dos movimentos evangélicos, veio dar lugar aos "charlatões da fé" e à perda de sentido de certos valores religiosos; e

ii) passagem para uma forma sem precedente de espiritualidade, ou seja, de relação do homem com o sagrado. É nesse ângulo da minha análise em que a minha provocação feita anteriormente ganha sentido. A midiatizacão da fé seria o caminho para a eliminação de si mesma enquanto "instituição". Enquanto "lugar", enquanto "assembleia", sendo que é está que facilite económia da fé e secularização do religioso, os fundamentalismo. A economia da fé é os fundamentalismo religiosos só existem porque existem as religiões. No contexto do cristianismo, faço prova disso as grandes dificuldades que certos líderes religiosos tem tido, nesta fase dos confinamentos sociais obrigatórios, para levar os seus fiéis a tirarem um tostão nos seus bolsos.

Não seria está uma via natural de se resolver o problema dessa "crise de valores" que afecta o campo religioso?
A tele-religião, paulatinamente, daria lugar a uma atomização (individualização) da religiosidade. As pessoas já não precisariam de líderes religiosos. Elas seriam líderes religiosos de si mesmos e, por si e por meio de si, ligar-se-iam ao sagrado (Deus). Morreriam as doutrinas, em nome das quais já se cometeram muitas atrocidades ao longo da história, e contra o próprio gênero humano. Não precisamos lembrar as vítimas do 11 de setembro e tanta outras que são destinadas à morte e à tudo em nome de uma "sã(tã) doutrina". Não precisamos lembrar as vítimas das figueiras santas, dentre eles o célebre Galileu Galilei. Não precisamos!

Portanto, não é só a economia capitalista mundial que corre o risco de sofrer novos contornos, segundo alguns, poder dar acesso a um sistema mais socialista centrado no Estado, a(s) religião(s) também(?). A religião também está cara à cara com a COVID-19, sob o risco de se ver alterada por ela(?).
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