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MORTE, POLÍTICA E ESTADO REGULADOR

O argumento de Sua Excelência Ministro Adão de Almeida se sujeita a um truque de persuasão, admissível no jogo político, que consiste em esconder as suas premissas, que no seu caso se resume na ideia da natureza do Estado, isto é, a sua abertura - que se traduz no desconfinamento - assegura a economia, que é de resto necessário ter presente nas prioridades das políticas dos governos nacionais.

Por Administrador em 27/05/2020 às 14:00:05

Ultimamente estou com o corpo soterrado até ao pescoço, quer dizer, confinado em absoluto, para quem não percebeu a metáfora, e me escusado de comentar em contextos públicos sobre questões que se relacionam a pós-pandemia, tanto é que percebi o sentido que tem a ideia do sociólogo Elísio Macamo de que não é sensato um intelectual normal adiantar diagnóstico sobre um dado fenómeno, complexo e estranho, que está em perspectiva e funcionamento corrente. Assim, o que vou escrever a seguir não é nada mais do que um enquadramento básico, mas mais de coerência interna do argumento do Ministro Adão de Almeida, que essencialmente diz que é necessário assegurar um equilíbrio entre a economia e a política de controlo da Covid 19.


Para já, este argumento de Sua Excelência Ministro Adão de Almeida se sujeita a um truque de persuasão, admissível no jogo político, que consiste em esconder as suas premissas, que no seu caso se resume na ideia da natureza do Estado, isto é, a sua abertura – que se traduz no desconfinamento – assegura a economia, que é de resto necessário ter presente nas prioridades das políticas dos governos nacionais. É um argumento correto e verdadeiro se tivermos em conta a ideia de que vivemos no contexto de um sistema histórico determinado fortemente por um modo de produção sem concorrência afirmada, exigente, mas também estupidamente sacrificial. Ou seja, este seu argumento exprime uma ordem de discurso, ou de coisas, para ser mais simples, que insinuam uma condição humana e material de aceitabilidade da morte e da sua higienização no contexto do aparelho do Estado que, como faz alusão Mbembe (2018), tem a prerrogativa de o fazer no quadro de uma política legitima de controlos de grupos sociais e dos contextos de riscos, isto é, basicamente, de decidir quem potencialmente vai/deve morrer e das circunstâncias destas mortes segundo "objectivos racionais", neste caso concreto económicos.


Perceberam bem o grau de crueldade? No nosso contexto, esta crueldade concorre com outras – a da fome que se generaliza com a paralisação da economia e dos empregos particularmente; a da falência do sistema de proteção social e de bem-estar que, em parte, subsiste a base da tributação da força de trabalho de todxs e das máquinas de produção – só que, no limite, o Estado tem de agenciar e escolher por nós que o instituímos o que é menos cruel, para o distribuir a nós mesmo segundo critérios de estratificação social. Enfim, posto assim desta maneira, é triste e fica-se com a sensação de um cenário de apocalipse devastador. Resta, para os que procuram consolo fácil, nesta fase que também é espectável um desconfinamento em relação ao direito aos cultos públicos, suplicar com fervor à misericórdia de Deus que com sua omnisciência, omnipotência faz verdade universal a tese segundo a qual o vírus SARC Covi-2, durante o processo da sua globalização terá, na sua base genética, se modificado consideravelmente para uma natureza benigna, como são algumas bactérias, ao organismo humano.

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