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Planalto Studio

Não contem comigo

Não existe exactamente uma oposição entre ciência e outras formas de saber. Existe, isso sim, continuidade. A relação que a ciência tem com o saber endógeno africano é a mesma que ela tem com o saber endógeno europeu

Por Administrador em 05/05/2020 às 06:37:41


Costumo dizer, e acredito nisso, que todo o académico africano é um crítico pós-colonial por defeito. Não é possível uma outra relação com a cultura intelectual que envolve o trabalho científico. Nas ciências sociais, ter uma atitude crítica em relação aos quadros teóricos e desconfiar da inocência dos conceitos faz parte do arcaboiço intelectual que precisamos de nutrir para podermos estar à altura do desafio que elas nos impõem. Uma das coisas que estimulam esta atitude crítica é a importância que a abertura das ciências sociais para outras maneiras de ver o mundo tem. É uma importância intrínseca, mas também é uma forma de inscrição das nossas vozes num discurso e numa prática que sem elas constituíria uma traição da própria actividade científica.


Então, ser crítico pós-colonial por defeito não se funda, aos meus olhos e na minha experiência, na rejeição da ciência. Funda-se na forte necessidade que eu sinto de contribuir para que a ciência corresponda ao seu próprio desiderato de instrumento de sistematização da produção do conhecimento. É isto que tento fazer no meu trabalho, é isto que partilho com estudantes e é isto que me irrita quando vejo a falsidade e hipocrisia de colegas que usam a sua autoridade académica – portanto, uma autoridade que lhes foi conferida pela ciência – para a pôr em causa. Esta falsidade resulta, quanto a mim, dum entendimento problemático do que a ciência é, mas também de graves lacunas na sua própria formação, lacunas essas facilmente ignoradas em ambientes ideológicos que apostam na protecção de convicções.


Há muita gente que escreve por aí que a ciência não é a detentora da verdade. Fica inchada como se tivesse feito uma grande descoberta. Claro que ela não é, e nem nunca foi. A ciência é um método de produção sistemática do conhecimento, mas também de esclarecimento do que julgamos saber. Ela não é superior ao conhecimento local, magia ou religião porque ela produziu aviões ou laptops. Com ou sem ciência, alguém teria produzido essas coisas. Ela é superior porque, primeiro, cultiva a crítica e auto-crítica, segundo, preocupa-se em fundamentar a própria base do conhecimento, terceiro, dispõe dum acervo de conhecimento que se constitui como fonte de inovação, quarto, baseia-se em instrumentos bem afiados e, quinto, porque ela tem consciência da sua própria falibilidade e, por isso, cultiva a dúvida metódica. Esta é uma descrição bastante idealizada da ciência, claro, e não significa que os outros sistemas de produção de conhecimento não contenham alguns ou todos estes elementos. Mas é na ciência como método que a gente encontra estes elementos mais apurados.


Neste sentido, não existe exactamente uma oposição entre ciência e outras formas de saber. Existe, isso sim, continuidade. A relação que a ciência tem com o saber endógeno africano é a mesma que ela tem com o saber endógeno europeu. É uma relação de continuidade, isto é de cristalização da ciência como melhor sistematização do conhecimento endógeno. Nem mesmo no caso da religião, onde a gente podia suspeitar uma ruptura, se trata disso. Os processos contra heresias, Galileu, por exemplo, não foram feitos apenas com recurso à Bíblia. Teólogos com formação científica foram chamados a verificar o conteúdo científico do que ele dizia e demonstrar cientificamente que ele estava equivocado. É verdade que no caso da religião a gente vê os riscos duma ciência feita a coberto das asas do poder político, mas esse não é um problema apenas da ciência. É de todas as formas de produção de conhecimento, incluíndo do saber endógeno que é sempre apresentado como um coitado quando, na verdade, ele também se reproduz com base em relações (locais) de poder.


O reconhecimento de outros saberes não pode assentar na rejeição da ciência, pois esse reconhecimento resulta directamente da nossa formação científica. Há aqui um importante problema lógico. Muitos dos que esticam o pescoço para dizer que existem outros saberes, ou que a ciência não é a única fonte da verdade, etc. fazem isso porque aprenderam a articular o seu pensamento dentro do contexto científico e recorrem, inclusivamente, ao vocabulário das ciências sociais e humanas para fazer isso. A questão é a seguinte: Como têm eles a certeza de que o que dizem não é um efeito da colonização da sua própria mente? Teoricamente, da mesma maneira que no passado dávamos por adquirido a visão eurocêntrica pode ser que estejamos apenas a repetir outro efeito de ilusão. De resto, uma das principais fontes de inspiração do nosso discurso "crítico" é o marxismo. Que eu saiba, o barbudo que inventou isso não foi nenhum Nhumaio de Gaza que se inspirou no saber ancestral Nguni.


Um dos ditos que mais me inspira como académico é dum filósofo camaronês, Fabien Eboussi Boulaga: "se a gente quiser mesmo sobreviver, a gente vai ter que filosofar de verdade". Filosofar de verdade não é apenas procurar ofensa racial, misógena, cultural, económica e todas as outras coisas sérias instrumentalizadas pelos preguiçosos intelectuais para nos impedir de nos apropriarmos da ciência. Filosofar de verdade é ter a ambição de conhecer melhor a ciência do que aqueles que dizem ser os seus donos, de irmos para além de Kant, Darwin e seja lá quem for. Filosofar de verdade é resistir à tentação de achar que ciência é coisa ocidental. Não é. É nossa também, mas partimos em desvantagem, por isso temos que correr. Eu digo a todo o jovem sociólogo moçambicano que me quer ouvir, quando me pergunta o que fazer para ser melhor ainda, que deve dominar pelo menos um clássico da sociologia. As pessoas que dizem a ele que esses clássicos são racistas leram-nos e formaram o seu pensamento reflectindo-os criticamente. Porque querem privar os jovens da mesma experiência?


Estão ali os chineses. Fabricam aviões e agora avançaram para o 5G. Lograram isso porque abraçaram a ciência, não porque andaram aí a dizer que têm o seu próprio conhecimento e que a sua atenção deve ser dirigida a isso. Não se trata exactamente de ciências sociais e humanas, mas a questão é essa. Recai uma grande responsabilidade sobre estas ciências em África, pois bem feitas, elas vão estimular o ambiente crítico necessário não só à produção científica como também, e isso é mais importante, à receptividade em relação a essa produção na sociedade. Se perante uma suposta inovação malgache a única contribuição dos cientistas sociais é celebrar o nativismo, desfiar teorias de conspiração e pôr em causa aquilo que lhes dá autoridade para serem ouvidos, a gente nunca vai chegar lá. Aí concordo com os políticos que dizem que as ciências sociais não têm nenhuma utilidade.


Nesse sentido, sou mesmo um colonizado mental. Sou pela ciência e não contem comigo para o charlatanismo sofisticado. E enquanto tiver fôlego e espaço, vou lutar para proteger os nossos jovens cientistas sociais dos efeitos nefastos da falsidade e desonestidade intelectual de alguns colegas. Este tipo de peleja dá-me mais tesão do que andar a implicar com o governo!

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