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DISCUTIR O SEXO DOS ANJOS

Chamei a atenção, nesse texto de 2008, para a importância de estruturar debates de relevância social, em torno de critérios. Com isso eu queria alertar contra o perigo de emocionalizar assuntos e, com isso, perder o tempo com o que é supérfluo.

Por Administrador em 22/04/2020 às 07:12:01

Elísio Macamo


No dia 27 de janeiro de 2008 publiquei um texto em que defendia, contra a ciência popular, a importância da discussão do sexo dos anjos. "Discutir o sexo dos anjos" é sinónimo de discutir o supérfluo, pois a expressão referia-se a um facto histórico real. Os otomanos atacaram e ocuparam Constatinopole enquanto os senadores e teólogos discutiam, entre outras coisas, a questão de saber se os anjos tinham sexo. Chamei a atenção, nesse texto de 2008, para a importância de estruturar debates de relevância social, em torno de critérios. Com isso eu queria alertar contra o perigo de emocionalizar assuntos e, com isso, perder o tempo com o que é supérfluo. A onda de indignação nacional em relação à decisão dos deputados de se outorgarem mais regalias é legítima, mas a forma como isso é feito me parece sintomático de muita coisa que está errada na maneira como abordamos o País.


Na altura escrevi o seguinte: "Na verdade, há várias coisas que a nossa imaginação mistura e concentra nessa expressão. A discussão sobre o sexo dos anjos é de longa data e envolve várias questões, todas elas de grande interesse para uma atitude crítica na sociedade. Existe o debate de contestação do Cristianismo que se baseia na exigência de estabelecer o sexo dos anjos para demonstrar a racionalidade (ou não) da fé. Os que defendem esta linha de argumentação dizem que se Deus enviou os anjos à terra e lhes deu aparência humana eles tinham, forçosamente, que ter um dos dois sexos: masculino ou feminino. Como podemos ver, não é uma pergunta supérflua, pois trata-se de estabelecer a facticidade de alguma coisa. Critérios! Outros até articularam essa preocupação com o sexo para saberem de que maneira se reproduzem os anjos. Como os humanos? Aqui também vemos que a questão não é supérflua. Suponho que a nossa rapidez em concluirmos que as pessoas que discutiram essa questão fossem idiotas prende-se ao facto de, gozando da vantagem que nos é conferida por séculos de racionalismo científico, sabermos que anjos não existem. Ora, as pessoas envolvidas nesse debate nesses tempos não tinham essa certeza, ou melhor, tinham a "certeza" de que anjos existiam. Através da reflexão que fizeram foram descobrindo que a sua convicção em relação à existência de anjos era problemática. Portanto, a sua reflexão não foi de todo supérflua.


Isto torna-se ainda mais evidente em relação ao prolongamento desse debate através da inclusão de Aristóteles, o grande filósofo grego. Contrariamente ao que veio a ser a posição oficial da Igreja, Aristóteles mantinha a ideia de que os Homens têm a capacidade inata de apreender o mundo pela razão. A Igreja, recorde-se, partia do princípio de que símbolos eram mais importantes do que o que eles representavam justamente porque supunha que as pessoas não fossem capazes de compreender a verdade na base das coisas. A Igreja insistia na necessidade de as pessoas simplesmente aceitarem a Verdade. A discussão bizantina sobre a iconoclastia – a destruição de ícones – tinha esta base epistemológica. Opunha os que queriam que se aceitassem verdades sem nenhum investimento racional pessoal e os que diziam, na linha de Aristóteles, que é preciso fazer esse investimento. Era uma discussão eminentemente política, mas também epistemológica, e, sobretudo, uma discussão relevante para as coisas da vida. O facto de Constantinópolis ter sido tomada pelo exército Otomano enquanto senadores, teólogos e filósofos discutiam o sexo dos anjos não torna essa discussão irrelevante, sobretudo se tomarmos em linha de conta que a definição do inimigo e do perigo que é eminente é do pelouro da razão e não da emoção. Em Moçambique justificou-se Nkomati com base na ideia do "cerco" do Apartheid. Se tivesse havido debate aberto e sério sobre o país naquela altura é bem possível que Nkomati talvez não tivesse sido necessário ou, a ser necessário, que tivesse assumido outro tipo de contornos. O relato que Jacinto Veloso faz no seu livro de memórias revela, em minha opinião, a falta que fez a discussão do sexo dos anjos para uma melhor tomada de decisão. A Frelimo agiu, ao invés de discutir o sexo dos anjos, e mesmo assim o país ardeu!


No debate de ideias sobre o desenvolvimento de Moçambique aparece esta acusação de vez em quando para questionar a legitimidade de reflexões diferentes das daqueles que acham já terem definido os problemas do país exaustivamente. Tudo o que não encaixa nas acusações de corrupção, na perfídia dos governantes e no saque das nossas florestas é considerado discussão do sexo dos anjos. Dado que a discussão bizantina sobre o sexo dos anjos tinha como pano de fundo o papel da nossa razão na nossa capacidade – e possibilidade – de apreender o mundo, não consigo perceber a utilidade que esta acusação tem para a nossa esfera pública. Justamente porque os problemas do nosso país são tão complexos e prementes precisamos, creio, de mais gente disposta a abalar os nossos pressupostos. Quem sabe quais são os verdadeiros problemas do nosso país? Quem pode impedir outros de procurarem definir para si esses problemas ou, pelo menos, certificarem-se de que a definição que outros oferecem é mesmo plausível? Quem pode determinar o ponto onde a reflexão intelectual deve parar para dar lugar à acção? Porque não deixar a acção para os políticos e defender o direito dos intelectuais de discutir o sexo dos anjos?".


A questão que coloco agora é se esta discussão que fazemos é mesmo útil no sentido como defino a discussão sobre o sexo dos anjos. Duvido. Primeiro, ela é eivada de populismo. Como tudo que é populista, não levanta questões de fundo, mas sim apela às emoções e convida as pessoas a reagirem ao assunto na base disso. A questão de saber o que vale a democracia para todos nós e como ela deve ser promovida não figura nisso. Segundo, ela é conformista. Dá a impressão de que o principal problema de Moçambique seja a ganância do deputado. Não recupera este assunto para reflectir sobre os verdadeiros problemas do nosso sistema político, um dos quais é a falta de prestação de contas. As pessoas em Cabo Delgado e no centro do País devem respirar de alívio por saber que a indiferença do governo em relação à sua sorte é compensada pela preocupação da intelectualidade de Maputo com as regalias de deputados que também mandaram à fava as vítimas inocentes da violência que acontece mesmo com a "paz definitiva" que eles aprovaram e sob o silêncio resiliente de quem jurou defender a constituição. Terceiro, ela parece hipócrita. Faz recurso ao "sofrimento do povo" como se quem assim reclama estivesse realmente preocupado com a sorte de quem tem menos quando, na verdade, o principal problema é capaz de ser não querer que estes deputados recebam assim tanto.


Saudades dos tempos bizantinos quando realmente se discutia o sexo dos anjos.


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