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THE HOUSE NEGRO AND THE FIELD NEGRO

Compatriotas tornaram a vida de milhares de angolanos num inferno. O niilismo social tomou conta de uma classe que, literalmente fez tábua rasa à todos os princípios mais elementares que assistem ao Estado de direito e democrático ; destruíram as estruturas, já frágeis , dos prováveis anticorpos e antídotos à doença da autocracia, da cleptocracia, da oligarquia, da impunidade e da megalomania

Por Administrador em 01/09/2020 às 07:04:08

THE HOUSE NEGRO AND THE FIELD NEGRO (O Negro da Casa e o Negro da Plantação)

Malcolm X falou sobre os dois tipos de africanos escravizados: o "negro da casa" e o "negro do campo". O negro da casa vivia na morada de seu proprietário, era bem vestido, e comia bem. Ele amava seu dono, tanto quanto seu dono amava a si próprio, e ele se identificava com seu proprietário. Se o seu dono adoecesse , o negro da casa perguntava: "Estamos doentes?" Se alguém sugerisse ao negro da casa que escapasse da servidão, ele se recusaria, perguntando onde ele poderia ter uma vida melhor do que aquela? ( In, Malcom X Speaks, Grove Weidenfeld, 1990).

Malcom X foi assassinado a 21 de Fevereiro 1965 em Nova York, Manhattan. Porém antes de dar a alma ao Criador naquele fatídico dia, no ano de 1963 durante a Northern Negro Grass Roots Leadership Conference, na Igreja Baptista Rei Salomão de Detroit, Michigan proferiu um discurso com um realismo profundo , deixando este legado para a humanidade. De forma veemente e eloquente , com a força que só os predestinados podem ter falou sobre o House Negro e o Field Negro. Um claro ataque satírico, num contexto da luta dos direitos civis dos afroamericanos. O escravo que no «conforto» da casa do Slave Master nunca aceitaria o repto para sair daquele lugar e procurar o seu próprio espaço e reconstruir a sua própria história, ter a sua própria casa, ser um homem finalmente livre. O house negro cuja resposta foi apenas aquela: onde poderia ter uma vida melhor que aquela?

Este repto na cabeça do house negro não passava de uma manifestação de loucura, à semelhança do que Platão retrata no Mito da Caverna, quando aquele que sempre viveu a olhar para as sombras , confundindo-as com a realidade , confrontado com o facto de que , aquilo que via eram apenas sombras e não a realidade o destino do «mensageiro» não foi outro senão a morte. Hoje em pleno século XXI , passados 55 anos desde a Morte de Malcom X, qual a actualidade daquele discurso no nosso contexto?

Ora entendemos , pois , que muitos de nós ainda vivemos sobre o cárcere de outras «Casas» onde o Slave Master , o dono dos escravos domina o subconsciente colectivo da nossa Sociedade , porquanto perdura sempre aquela pergunta: aonde poderei viver melhor? A (i)lógica da manutenção do status quo que reside numa aparente escolha popular e que hoje achamos que longe deste desígnio a nação angolana não terá nenhum futuro. Porque fora da umbrella ideológica e partidocrata restar-nos-á apenas a perdição. Tal aconteceu com os mensageiros da desgraça segundo os quais depois da era Eduardista o País entraria em colapso. Na verdade o País não entrou em colapso, o sol continua a nascer e sob este mesmo sol assistimos ao ocaso das estrela cintilantes que ao longo de muitos anos capturaram o Estado. Colocaram os bens públicos ao seu serviço e fizeram deste País um lugar mau para se viver.

Sob a égide do Master Slave construíram, estruturaram os seus impérios e subjugaram os seus próprios compatriotas, política, económica e ideologicamente. Investiram na emergência e manutenção do culto da personalidade. Da forma mais vil e voraz impediram e subjugaram qualquer voz que de forma audível se manifestasse sobre uma realidade que estava à vista de todos. Os House Negros acomodados sob o tecto do Master Slave no inverno da vida ultrajaram os Field Negros, a ponto de tornarem-se os donos de tudo isto! O céu para eles nem sequer era o limite. Tal era a ambição desmedida. Coração de homem insaciável de riqueza quanto mais tem mais quer!

Os desafios estão longe de ter terminado e a perpetuação da escravidão mental é um mal embrenhado nos espíritos. Um exorcismo impõem-se por via do anátema aos medos e receios que têm tanto de irracional quanto de deprimente. Estas pessoas não ficaram apenas pelo saque da Nação, por consequência do estado decrépito da própria terra, tão frágil se tornou que nem sequer aos seus filhos pôde garantir pão e leite. Lá se foram os sonhos…lá se foram as conquistas de outrora. Os esforços de séculos de luta contra a escravidão, os cárceres, os sem números de Amistad´s e corpos deitados no mar, engolidos pelo desprezo de uma pretensa raça superior. Infelizmente emergiram outros devils, como o próprio Malcom X chamava ao homem branco esclavagista, racista e xenófobo. O escravo criado na casa do Escravista , herdando o nome do seu amo achou-se mais pessoa que qualquer outra, mais humano que qualquer simples mortal. O field negro, aquele que vive fora das suas fronteiras domiciliares, fora do seu espaço de convívio com os privilegiados , por pseudo herança de nomenclatura iconoclasta e sucessão histórica, não é partícipe na partilha dos acepipes dos restos do repasto do meio dia.

Os house negro com a sua ambição desmedida, tal como os escravistas que apagavam os nomes dos autóctones marcando um X nos seus verdadeiros nomes africanos, levados como Mercadorias para o além-mar, impediram muitos angolanos de ter um nome, de existir e hoje partilhar o dom da vida connosco. Impediram que cidadãos angolanos tivessem melhores escolas e consequentemente melhor educação. Obrigaram-nos a continuar nas plantações hodiernas , a emigrar, a fugir da nossa própria terra, a queimar debaixo do sol ardente das urdiduras do dia-a-dia de fadiga. The struggle for life! Mas nesta luta nem todos foram survivors. Muitos feneceram, muitos abdicaram os seus sonhos, abandonaram mais uma vez a sua própria terra e voltaram a entregar-se nas mãos dos antigos algozes do passado recente. Porque os supostos irmãos, os supostos patriotas revestidos de auctoritas perpetuaram da forma mais vil o legado de miséria contra a qual muitos lutaram, derramando sangue suor e lágrimas.

"O que você e eu precisamos fazer é aprendermos a esquecer nossas diferenças. Quando nos reunimos, não estamos a nos juntar como baptistas ou metodistas. Você não irá para o inferno por ser um baptista, e você não irá para o inferno porque é metodista. Você não irá para o inferno por ser baptista ou metodista. Você não irá para o inferno por ser democrata ou republicano. Você não irá para o inferno por ser um maçom ou um alce, e certamente você não irá para o inferno porque é americano; porque se você é americano, você não irá para o inferno. Você vai para o inferno porque você é um homem negro. Você vai para o inferno, todos nós vamos para o inferno, por essa mesma razão» (Malcom X)

Compatriotas tornaram a vida de milhares de angolanos num inferno. O niilismo social tomou conta de uma classe que, literalmente fez tábua rasa à todos os princípios mais elementares que assistem ao Estado de direito e democrático ; destruíram as estruturas, já frágeis , dos prováveis anticorpos e antídotos à doença da autocracia, da cleptocracia, da oligarquia, da impunidade e da megalomania . Enfim…um séquito infindável de outras «manias» que empoeiraram as prateleiras de uma democracia em construção , a qual pretende-se mais robusta, mais assertiva, mais realista, mais comprometida, menos partidária , mais nacionalista, mais cidadã…mais humana! Uma democracia comprometida com os interesses dos angolanos como um todo. Uma democracia que se traduza numa governação que respeita os princípios mais basilares que permitam a emergência do homem novo. O cidadão que não é mais ideologicamente escravo. O cidadão que não se alucine com o panis et circenses (pão e circo). O cidadão capaz de chamar nomes às coisas. O cidadão cuja massa crítica signifique dinamismo político e cultural porque o homem é político por natureza ( Aristóteles). Queremos uma democracia efectiva através da qual reconheçamos no Ballot (Boletim de voto) uma verdadeira força, Bullet ( Bala) para perfurar o manto da injustiça que os predadores ergueram ao longo dos anos de impunidade , fazendo emergir os vários Adamastores de olhos encovados e barbas esquálidas que afundaram os nossos sonhos no Cabo das Tormentas!

Por: Kalunganu Saiazi

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